Bem-Vindo à Sala Pesca Sustentável
A pesca sustentável é, antes de tudo, um problema de ecologia aplicada e gestão de recursos naturais. Não se define por intenções, nem por perceções. Define-se por resultados mensuráveis: manter um recurso explorado biologicamente viável ao longo do tempo, com impacto controlado sobre o ecossistema e com um regime de exploração compatível com a renovação natural do stock. Quando falamos de espécies associadas a ambientes fluviais e estuarinos — frequentemente migradoras, com ciclos de vida complexos e dependência de habitats muito específicos — esta exigência é ainda maior, porque a sustentabilidade deixa de depender apenas da captura e passa a depender da integridade de todo o sistema: água, conectividade, barreiras físicas, qualidade do habitat e pressão humana cumulativa.
Do ponto de vista científico, a sustentabilidade na pesca é um equilíbrio dinâmico entre três dimensões: (1) a biologia da espécie (reprodução, crescimento, mortalidade natural, recrutamento), (2) a pressão de exploração (mortalidade por pesca, seletividade das artes, esforço aplicado, intensidade temporal) e (3) o contexto ambiental (condições do rio/estuário, variabilidade climática, disponibilidade de habitat, perturbações hidromorfológicas). Qualquer desequilíbrio significativo num destes elementos altera o resultado final. E esse resultado final não é abstrato: traduz-se na diminuição do recrutamento, na alteração da estrutura populacional, no colapso de classes etárias, na perda de resiliência e, em última instância, no declínio do recurso e na erosão do valor económico associado.
É por isso que a pesca sustentável não pode ser reduzida a slogans. O seu núcleo é técnico: gestão do risco e gestão da incerteza. Em pescas com dados incompletos — cenário frequente em ambientes fluviais — o risco não diminui por se ignorar; aumenta. A ausência de informação não “abre espaço” para maior exploração; exige prudência metodológica. O princípio é simples: quando a incerteza é elevada, as regras têm de ser mais robustas, e o sistema de controlo mais coerente, para compensar o que não se consegue observar diretamente.
A partir daqui, emerge uma verdade incontornável: a pesca sustentável não é um atributo do pescador isolado, nem do consumidor isolado. É um atributo do sistema. Um sistema pode ter boas intenções e ainda assim falhar, se não existir capacidade real de controlo. E um sistema pode ser biologicamente bem desenhado e ainda assim falhar, se não existir adesão e fiscalização.
Por isso, a sustentabilidade exige uma arquitetura completa: regras claras, dados consistentes, verificação operacional e integridade documental. Sem estes elementos, a gestão torna-se frágil, porque não consegue distinguir aquilo que é sustentável daquilo que apenas parece sustentável.
Nesta sala, quando falamos de pesca sustentável, falamos de credibilidade científica aplicada à cadeia comercial. Falamos de como se constrói um regime de exploração que protege simultaneamente:
- o recurso (continuidade biológica),
- o pescador que cumpre (equidade e valorização do trabalho legal),
- o consumidor (confiança e segurança),
- e o próprio Estado (capacidade de gestão e conservação do património natural).
