Lampreia a 2,5€: o outro lado da história ou do elástico!

Durante muitos anos, o mercado da lampreia viveu numa espécie de recreio muito animado. Não era um recreio de crianças, embora a ingenuidade fingida de alguns participantes fosse, por vezes, quase infantil. Era o recreio do elástico. Daqueles jogos antigos em que se salta de um lado para o outro, primeiro com facilidade, depois com esforço.


Só que, neste recreio, durante muito tempo, ninguém precisava de grande técnica. O elástico estava baixo. Muito baixo. Tão baixo que quase se confundia com o chão. E quando o elástico está no chão, até quem nunca treinou parece campeão. Mais do que isso: quando o elástico está baixo, salta-se facilmente para um lado e para o outro. Vai-se, volta-se, troca-se de posição, muda-se o discurso e quase ninguém repara.


De um lado do elástico estava o lado que agora, naturalmente, ficou menos elegante recordar: a pesca ilegal, o produto a 2,5€ a unidade, a quantidade fácil, a lampreia pequena de graça, os tanques cheios, os fornecedores convenientes, as compras rápidas, as conversas discretas e aquela maravilhosa capacidade colectiva de não querer saber demasiado sobre aquilo que dava tanto jeito comprar.


Do outro lado estava a parte aborrecida da brincadeira: a pesca legal, as faturas, a rastreabilidade, os documentos, a transformação licenciada, os registos, a rotulagem, a responsabilidade perante o consumidor, a preocupação com o futuro da espécie e todas essas coisas que têm o terrível defeito de tornar um negócio menos fácil, menos barato e muito mais difícil de romantizar.


Durante anos, o grande talento do setor foi precisamente esse: saltar entre estes dois lados com uma elegância quase olímpica. E foi assim, com esta ginástica discreta, que muita coisa se construiu. Construíram-se empresas. Encheram-se tanques. Compraram-se carrinhas. Criaram-se clientes. Alimentaram-se restaurantes. Consolidaram-se nomes. Fez-se mercado. O elástico estava baixo, a brincadeira era fácil e quase ninguém parecia particularmente interessado em discutir regras.


Durante muito tempo, o recreio funcionou maravilhosamente assim. Havia sempre alguém a segurar no elástico, alguém a saltar por cima, alguém a passar ao lado e alguém a fingir que estava apenas a observar. E todos pareciam satisfeitos. Ninguém tinha grande pressa em subir a dificuldade.


Depois apareceu a Karapau. E a Karapau fez uma coisa profundamente inconveniente para quem jogava confortável: subiu o elástico. Já não basta levantar o pé. Já não basta sorrir. Já não basta dizer “sempre se fez assim”. Já não basta ter anos de mercado. Agora há chamadas gravadas, mensagens guardadas, inspeções, consumidores atentos, autoridades, faturas, perguntas, registos, rotulagem e demasiados olhos no recreio.


Foi então que aconteceu um fenómeno absolutamente enternecedor: a súbita descoberta colectiva do “lado certo da história”. De repente, antigos especialistas do salto baixo apareceram muito sérios, muito compostos, muito preocupados, a explicar a importância da sustentabilidade, da preservação da espécie, da responsabilidade e da transparência. Muitos deixam de querer parecer jogadores do recreio antigo e passam a escolher cuidadosamente o lado onde querem ser vistos


O recreio, porém, lembra-se. Lembra-se de quem saltava. Lembra-se de quem saltava muito. Lembra-se de quem fazia da quantidade uma virtude e da origem um detalhe. Lembra-se de quem só descobriu a elegância da legalidade depois de a ilegalidade começar a ficar feia na fotografia.


Agora, claro, o recreio está diferente. Alguns continuam a olhar para o elástico com indignação. Outros fingem que nunca saltaram. Outros preferem esquecer que algumas vez jogaram ao elástico!


No fundo, o “lado certo da história” ficou muito popular depois de a Karapau ter subido o elástico. E ainda bem. É sempre bom ver tanta gente apaixonada por regras depois de tantos anos de namoro com a flexibilidade.


E resta saber se alguns vão realmente saltar por cima, com as duas pernas e as duas mãos do lado certo da história, ou se, quando a música institucional acabar e as câmaras se desligarem, vão fazer aquilo que no recreio antigo sempre deu menos trabalho: passar discretamente por baixo. Porque o elástico esse não volta a descer!


Aguardaremos pelos próximos vídeos institucionais.

Talvez no próximo expliquem também quem lhes ensinou a jogar ao elástico!


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