Setor da lampreia muda — e nem todos acompanham da mesma forma


Nos últimos anos, o setor da lampreia em Portugal tem assistido a uma transformação curiosa — não apenas ao nível das práticas, mas sobretudo ao nível do discurso. Subitamente, conceitos como “sustentabilidade”, “monitorização científica” e “parcerias com entidades” passaram a ocupar um lugar central na comunicação de operadores que, durante décadas, mantiveram uma presença discreta — ou, no mínimo, pouco alinhada com estas narrativas.  É um fenómeno, no mínimo, revelador.


Durante muito tempo, a cadeia de valor deste produto assentou numa lógica pouco estruturada, marcada por níveis reduzidos de rastreabilidade, ausência de normalização e uma relação difusa entre origem, transformação e consumidor final. Um modelo que, sendo funcional, raramente era questionado — talvez porque também raramente era exposto.


 Hoje, no entanto, o contexto é substancialmente diferente. A entrada da Karapau no mercado, com uma abordagem assente na legalidade, transparência e integração institucional, introduziu um novo nível de exigência. Aquilo que outrora era opcional passou a ser essencial. O que permanecia invisível passou a ser escrutinado. E o que não era comunicado passou, curiosamente, a ser amplamente divulgado.


Neste novo enquadramento, torna-se também evidente que a exigência atual não surgiu de forma espontânea, mas foi impulsionada por quem trouxe para o setor uma lógica diferente — mais exposta, mais rigorosa e menos tolerante à informalidade que durante anos foi aceite como norma.


Mais do que uma evolução orgânica, estamos possivelmente perante uma adaptação estratégica. E é precisamente aqui que surge a ironia.  Assistimos por parte de entidades e  empresas, uma espécie de “corrida à sustentabilidade”, onde, em alguns casos, a comunicação precede a consistência estrutural. Fala-se em “estar do lado certo da história” — uma expressão forte, carregada de intenção, mas que levanta uma questão inevitável: quando começou, de facto, esse posicionamento?


 Porque estar do lado certo da história não é um ponto de chegada. É um percurso. Não se constrói num momento de viragem comunicacional, nem se sustenta apenas com alinhamentos institucionais recentes. Exige continuidade, compromisso e, sobretudo, coerência ao longo do tempo — especialmente quando não existe visibilidade nem pressão externa.


Neste novo enquadramento, torna-se cada vez mais evidente a distinção entre dois tipos de posicionamento: o que nasce de uma convicção estrutural, e o que emerge como resposta a uma mudança de mercado. Ambos coexistem. Mas não são equivalentes.


Num setor onde a sustentabilidade deixou de ser uma opção para se afirmar como responsabilidade coletiva, o verdadeiro desafio não está em adotar o discurso — está em sustentar a prática. E, no longo prazo, o mercado tende a distinguir com clareza quem iniciou o caminho… de quem apenas decidiu segui-lo.

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