O lado certo da história, a boleia das lampreias e outros milagres modernos da conservação

Há expressões que têm qualquer coisa de religioso. “O lado certo da história” é uma delas. Não se diz simplesmente: “participámos numa ação”, “colaborámos num projeto”, “ajudámos numa operação técnica” ou “fomos chamados para dar apoio logístico”. Não. Isso seria demasiado modesto, demasiado terreno, demasiado pouco épico. Diz-se: estamos do lado certo da história. E pronto. A frase desce sobre o rio como uma bênção. As águas abrem-se. As lampreias emocionam-se. Os pescadores respiram fundo. A ciência acena. E todos nós, pobres mortais do lado incerto da história, ficamos a tentar perceber se estamos perante uma operação de conservação, uma campanha institucional, uma missa campal ecológica ou uma nova modalidade de transporte assistido para peixes com currículo migratório.


A publicação da empresa é, nesse sentido, deliciosa. Não pelo conteúdo técnico, que é discreto como uma lampreia no lodo, mas pela segurança moral. Há ali uma confiança rara. Depois de anos e anos de atividade comercial ligada à lampreia, descobre-se agora não apenas a importância da espécie, não apenas a urgência da conservação, mas o exato lado da história onde convém estar. E, por sorte, esse lado parece ter boa luz, enquadramento de rio e fotografias aproveitáveis para redes sociais.


Não é todos os dias que uma empresa encontra a história. Muito menos o lado certo dela. Há empresas que demoram décadas a encontrar fornecedores, mercados, clientes, licenças, margem, embalagem, posicionamento. Esta encontrou uma coisa mais elevada: encontrou a virtude pública. E encontrou-a, curiosamente, no momento em que a conservação da lampreia começou a dar notícia. Mas não sejamos injustos. A frase tem mérito. “O lado certo da história” é muito melhor do que “o lado financiado do projeto”, “o lado operacional da translocação”, “o lado que aparece na fotografia” ou “o lado que ajuda a carregar o peixe”. É mais bonito. Tem mais altitude. Dá outra solenidade à coisa. Uma empresa não publica “hoje colaborámos numa ação técnica com entidades académicas e públicas”. Isso seria honesto, mas pouco inspirador. Publica-se “lado certo da história”, porque a conservação, quando bem temperada, também pode servir de branding.


E depois há a paciência. A universidade explica que a lampreia poderá recuperar se todos tiverem paciência suficiente. É uma frase bonita, daquelas que acalmam qualquer plateia. A biologia demora, o ciclo é longo, a natureza tem ritmos próprios. Tudo verdade. A lampreia não é uma campanha de fim de semana. Não se planta uma translocação numa segunda-feira para colher abundância na sexta. Mas a paciência, como conceito científico, tem um pequeno problema: é muito confortável para quem tem de esperar por resultados e muito útil para quem não quer ser cobrado demasiado cedo. É quase perfeita. Se daqui a dois anos não houver grande coisa, é cedo. Se daqui a cinco anos ainda não houver grande coisa, é preciso mais tempo. Se daqui a sete anos a recuperação não aparecer, talvez a culpa seja do mar. Se daqui a dez anos continuarmos a falar em declínio, poderemos sempre concluir que faltou aquilo que faltou desde o princípio: mais paciência.


E, de facto, haja paciência.


Mas antes da paciência, talvez valesse a pena falar de outras palavras menos poéticas e mais aborrecidas: santuários, monitorização, habitats larvares, transparência, indicadores, custos, responsabilidades, fiscalização e resultados.


A translocação tem essa vantagem: vê-se. Há gente. Há rio. Há coletes. Há caixas. Há peixe. Há gesto. Há momento. É perfeito para a era da conservação performativa. Já a monitorização séria é uma criatura muito menos sedutora. Exige amostragens, registos, séries temporais, relatórios, comparação entre anos, identificação de ninhos, avaliação de larvas, sobrevivência, seguimento, dados públicos. Ou seja, coisas que estragam um pouco a poesia da frase “lado certo da história”.


E depois há os tais números. Quantas lampreias? Onde? Com que critério? Capturadas por quem? Pagas a quem? Com que autorização? Transportadas em que condições? Libertadas onde? Monitorizadas como? Reproduziram-se? Houve ninhos? Houve larvas? Houve sobrevivência? Houve relatório? Houve auditoria? Houve comparação com outras medidas? Houve avaliação do custo por potencial reprodutor? Houve algum plano para não estarmos daqui a cinco anos a repetir a mesma cerimónia com outro comunicado e nova dose de orgulho?


São perguntas aborrecidas, eu sei.


A COP15 ajuda precisamente a separar o bonito do sério. O relatório final mostra que o mundo está preocupado com a crise das espécies migratórias, não porque lhes falte transporte ocasional, mas porque lhes faltam sistemas conectados. O problema internacional é a fragmentação dos habitats, a perda de continuidade ecológica, a pressão sobre corredores migratórios, a má gestão das infraestruturas, a falta de recursos e a dificuldade em coordenar políticas entre territórios. A COP15 não reuniu milhares de pessoas para descobrir que a solução para as espécies migratórias era criar uma aplicação tipo Uber Lampreia.


Ainda assim, admitamos que a ideia tem potencial. “Lampreia Mobility — do mar ao rio, com paragem em todas as zonas de desova.” Serviço premium. Motoristas certificados. Entrega direta em habitat. Opção ida e volta. Desconto para juvenis. Programa de fidelização para adultos reprodutores. E, claro, selo: “do lado certo da história”. O problema é que a lampreia não precisa de uma carreira turística. Precisa de um rio onde consiga fazer aquilo que fez durante milhares de anos sem comunicados, sem campanhas e sem empresas a explicar-lhe em que lado da história deve nadar.


A parte dos santuários é talvez a mais importante e a menos discutida. Se há zonas críticas para reprodução e desenvolvimento larvar, essas zonas deviam ser tratadas como património ecológico. Não basta libertar adultos a montante e esperar que a natureza resolva o resto com boa vontade. É preciso saber onde estão as áreas de desova, onde os amocetes se instalam, que sedimentos são adequados, que perturbações existem, que intervenções municipais ou agrícolas podem destruir habitat, que trechos devem ser protegidos, que períodos devem ser interditos a certas ações e que responsabilidades recaem sobre cada entidade.


Também é curioso o papel da “monitorização” na comunicação. A palavra aparece sempre com uma elegância quase medicinal. “Monitorização” tranquiliza. Dá a sensação de que há alguém com uma prancheta, um GPS, talvez uma bata invisível, a acompanhar tudo com rigor. Mas monitorizar não é dizer que se monitoriza. Monitorizar é produzir dados. E dados, quando existem, podem ser mostrados. Quantos adultos chegaram? Quantos ninhos foram confirmados? Qual foi o sucesso de desova? Houve deteção de larvas? Qual a taxa de sobrevivência? Que comparação existe entre zonas com translocação e zonas sem translocação? Que indicadores vão definir sucesso ou fracasso? Sem isso, “monitorização” corre o risco de ser apenas uma palavra cara para dizer “fomos vendo”.


E depois há o projeto. Todos os projetos ambientais modernos têm uma linguagem própria. Há sempre nomes, siglas, parcerias, financiamento, objetivos, sensibilização, restauro, governança, stakeholders e ações-piloto. É uma liturgia. E, como em todas as liturgias, há momentos altos: lançamento, ação no terreno, fotografia, reportagem, agradecimentos, promessa de futuro. O momento baixo costuma vir depois, quando alguém pergunta: “E os resultados?”


Aí entra a paciência.

E que bela invenção, a paciência. A paciência é o airbag discursivo da conservação. Amortece tudo. Se há poucos números, paciência. Se ainda não há resultados, paciência. Se não se sabe se a medida funcionou, paciência. Se o ciclo é longo, paciência. Se a população não recuperar, talvez tenha faltado paciência. A paciência é tão útil que quase devia ter financiamento próprio.


Quanto à empresa, a ironia não está em participar. Participar pode ser bom. Pode ser útil. Pode ser até necessário. A ironia está no tom de revelação moral. Há algo de encantador em ver uma empresa apresentar-se quase como heroína ecológica, quando o que se espera de qualquer operador que depende de uma espécie em declínio é, no mínimo, responsabilidade. Não é heroísmo. É decência operacional. Quem trabalha com uma espécie ameaçada ou em queda não está a fazer um favor ao mundo por contribuir para a sua recuperação. Está a tentar garantir que amanhã ainda existe aquilo que hoje lhe permite existir. Mas, convenhamos, “decência operacional” não fica tão bem num post.

“Estamos do lado certo da história” fica melhor. Tem drama. Tem palco. Tem uma espécie de capa invisível. Só falta a banda sonora.


Também seria interessante saber se esse lado certo da história veio acompanhado de alguma nota de encomenda, contrato, pagamento por exemplares, apoio logístico remunerado ou qualquer forma de compensação. E atenção: se veio, não há necessariamente problema. O problema é outro. Se alguém é pago para participar, talvez devesse trocar o tom messiânico por um tom ligeiramente mais administrativo. “Prestámos serviços no âmbito de um projeto de conservação” é menos épico, sim. Mas tem a vantagem de não parecer que São Francisco de Assis abriu uma empresa de lampreia.


E se não houve pagamento nenhum, melhor ainda: publique-se. Diga-se claramente. “A nossa participação foi inteiramente voluntária, sem compensação financeira, e os custos foram assumidos por nós.” Isso sim seria forte. Isso sim colocaria a conversa noutro patamar. Porque o lado certo da história, quando é mesmo certo, costuma sobreviver bem à transparência.


Outra dimensão pouco falada é a dos pescadores. A publicação agradece aos pescadores, e bem. Mas convém não romantizar tudo. Os pescadores são parte essencial do território, conhecem o rio, conhecem a espécie e têm experiência prática acumulada. Mas também fazem parte de uma cadeia económica que depende da captura. Portanto, qualquer projeto sério tem de integrar pescadores, sim, mas também tem de definir limites, regras, compensações, fiscalização e responsabilidades. Não basta agradecer. Agradecimentos não são gestão.


A ciência não pode servir apenas para dar verniz técnico a uma operação que depois é vendida por terceiros como epopeia empresarial. A ciência tem de ser a parte incómoda da mesa.  Porque se deixarmos a narrativa fugir, em breve teremos uma nova categoria de conservação: a conservação comemorativa. Não se mede por resultados, mede-se por entusiasmo. Não se avalia por recuperação populacional, avalia-se por alcance nas redes. Não se pergunta o que mudou no rio, pergunta-se quem apareceu na fotografia. E tudo termina com uma frase bonita, uma mão no peito e uma lampreia a seguir viagem.


A lampreia, essa, provavelmente preferia menos poesia e mais sedimento. Preferia zonas de desova protegidas. Preferia larvas não perturbadas. Preferia margens cuidadas. Preferia água limpa. Preferia caudais compatíveis. Preferia barreiras resolvidas. Preferia fiscalização. Preferia que a sua existência não dependesse de campanhas anuais de transporte com vocabulário heroico. E talvez preferisse, acima de tudo, que o seu futuro não fosse transformado num concurso de virtudes entre empresas, entidades e projetos.


Porque, no fim, a pergunta não é quem está do lado certo da história. A pergunta é quem está disposto a ficar do lado certo quando não houver fotografia, quando não houver post, quando não houver notícia, quando for preciso proteger uma zona silenciosa de lodo onde ninguém vai tirar selfies, mas onde a espécie realmente começa. O verdadeiro lado certo da história talvez não esteja na margem onde se liberta a lampreia. Talvez esteja no trecho de rio que se decide não destruir. No sedimento que se decide proteger. Na barreira que se decide remover. Na intervenção que se decide adiar. No relatório que se decide publicar. No dinheiro que se decide explicar. Na monitorização que se decide mostrar.

Mas isso dá menos likes.


Portanto, ficamos assim: celebremos a boleia, sim, com a moderação que qualquer boleia merece. Agradeçamos a todos os envolvidos, sem transformar cada gesto numa canonização. Reconheçamos que a translocação pode ter utilidade, sem fingir que inventámos a salvação da espécie. Peçamos dados, sem sermos acusados de estar do lado errado da história. E aguardemos, claro, porque a biologia exige tempo.


Mas enquanto esperamos, talvez fosse útil ir sabendo umas coisinhas. Onde estão os santuários? Que zonas larvares foram identificadas? Que áreas serão efetivamente protegidas? Que intervenções nas margens serão proibidas ou condicionadas? Que barreiras continuam por resolver? Quantas lampreias foram transportadas? Quem pagou? Quem recebeu? Que dados serão publicados? Quem valida a monitorização? Qual é o critério de sucesso?


E, já agora, quando as pequenas lampreias quiserem descer para o mar, a boleia também está incluída ou é só viagem de ida com fotografia à chegada?


Para já, haja realmente muita paciência!

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